Três poetas brasileiros

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Carlos Drummond de Andradecarlos-drummond-de-andrade-biografia

CONSOLO NA PRAIA
Vamos, não chores…
A infância está perdida.  
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado,
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te – de vez – nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.
><><

 

João Guimarães Rosaguimares-rosa-caractersticas-e-obras-2-638
A ESTÓRIA DE LÉLIO E LINA
Lélio se estendeu, feliz de seu bom descanso. Já se abençoava de ter vindo para o Pinhém; principalmente se conseguia solto, dono de si e sem estorvo. era um novo estirão de sua vida, que principiava. Antes, nos outros lugares onde morara, tudo acontecia já emendado e envelhecido, igual se as coisas saíssem umas das outras por obrigação sorrateira – os parentes, os conhecidos, até os namoros, os divertimentos, as amizades, como se o atual nunca pudesse ter uma separação certa do já passado; e agora ele via que era dessa quebra que a gente precisava às vezes, feito um riachinho num ribeirão ou rio precisa de fazer barra.
E, vai, a solto, sem espera, seu coração se resumiu; vestida de claro, ali perto, de costas para ele, uma moça se curvava, por pegar alguma coisa no chão. Uma mocinha.(…). Então ele fechara os olhos. Para ele, aquele gotejo de minuto em que esperou, esperdido, estarreado, foi como se ele tivesse subido dali, em neblinas, para lugar algum, fora de todo perigo, por sempre. E era nela que seus olhos estavam. (…)
Rosalina. Você acha bonito o meu nome? Já fui mesmo Rosa. Não pude ser mais tempo. Ninguém pode. Estou na desflor. (…) Agora é que você vem vindo, e eu já vou-m’bora.A gente contraverte. Ou fui eu que nasci de mais cedo, ou você nasceu tarde demais.

><><

 Manuel Bandeira

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PREPARAÇÃO PARA A MORTE
A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu voo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
O tempo, infinito,
O tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
 Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.

><><

ANDRADE, Carlos Drummond. Poesia completa – Editora Aguilar, 1a. tiragem, 2002. Rio de Janeiro
GUIMARÃES ROSA, João. No Urubùquaquá, no Pinhém, 4a. edição. Livraria José Olympio Editora – Rio de Janeiro
BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Círculo do livro. ISBN: 85-332-0893-6

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