Mrs. Dalloway – Virgínia Woolf (1)

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Mrs. Dalloway    Em mais uma releitura de ‘Mrs. Dalloway’, prefiro ir aos poucos, camada por camada, começando pela prosa poética, que foi a primeira coisa que me fascinou quando comecei a ler os livros dessa autora.
    Logo ao despertar, Clarissa Dalloway resolveu: ela própria iria comprar as flores para a festa. Por isso sua alegria. Por causa da festa que daria à noite.
    Mas que manhã – fresca como para crianças numa praia!
    Que frêmito! Que mergulho! Pois sempre assim lhe parecera quando, com um breve ringir de gonzos, que ainda agora ouvia, abria de súbito as vidraças e mergulhava ao ar livre, lá em Bourton.Que fresco, que calmo, mais que o de hoje, não era então o ar da manhãzinha.
    Andando pelas ruas de Londres, sua alegria está presente em todo o lugar – sua percepção como que transfigura todas as ruas e parques e árvores, os transeuntes, um carro que passa, conduzindo alguém da realeza e despertando a curiosidade de todos Seguimos com ela esse trajeto: Victoria Street, Arlington Street, Picacadilly, St. Jame’s Park, Bond Street.
    Bond Street fascinava-a; Bond Street na manhã de primavera; as suas bandeiras drapejando; as suas loja. Tendo vivido em Westminster, mesmo em meio ao tráfego, Clarissa sempre sentia um particular silêncio, uma solenidade. (…) Ao ouvir bater o Big Ben. Que loucos somos, pensava ela, atravessando Victoria Street. Só Deus sabe como se ama a isto, como se considera a isto, compondo-o sempre, construindo-o em torno de nós, derribando-o, criando-o a cada novo instante; até as últimas mendigas (bebem a sua ruína) faziam o mesmo; impossível ela o sabia, impossível salvá-las com leis parlamentares, por esta simples razão: amava a vida.
    Cada um desses flashes reflete algo de si mesma, de seu mundo interior. Mas nem tudo é alegria na vida de Clarissa. Ao chegar em casa, fica magoada ao saber que Lady Bruton convidara Richard para almoçar, sem estender o convite a ela. Informa-se de que uma pessoa inadequada comparecerá à sua festa. Recebe a visita de um amor do passado, fazendo-a lembrar-se de coisas que a deixam melancólica. A sua cama seria cada vez mais estreita. A filha, Elizabeth talvez não esteja presente à festa, anda distanciada, seguindo as idéias de sua professora de História, uma pessoa de quem Clarissa não gosta…
    Da manhã à noite, quando acontecerá a festa,é o tempo da duração deste romance. Alguns dizem que poderia ter como subtítulo “um dia na vida de uma mulher”. No entanto, muitos outros elementos estão presentes na narrativa, os quais não atingem Mrs. Dalloway – porque ela não vê, ou prefira ignorá-las. O caso das mendigas, por exemplo.
até as últimas mendigas (bebem a sua ruína) faziam o mesmo; im-possível ela o sabia, impossível salvá-las com leis parlamentares.
Caminhando por Londres, Clarissa fala em Compor, Construir, Derribar, Criar de novo – porque, em 1924, quando o romance foi publicado, a Europa vivia o pós-guerra – Segunda Guerra Mundial, de 1914 a 1929. A guerra acabou, mas seus efeitos ainda se fazem sentir por todo o país. A autora vai nos mostrando, através de outras personagens, rastros dolorosos deixados pela guerra. As mendigas na rua, o desemprego, o que fazer com os jovens, a necessidade de novas leis parlamentares e de ações efetivas que resolvam esses problemas. Pessoas próximas a Clarissa perderam filhos ou familiares na guerra (mas com certeza irão à sua festa).
    Para o anônimo Septimus Warren Smith, um jovem soldado sobrevivente, a guerra não acabara – em seus delírios se vê constantemente no campo de batalha, com imagens amedrontadoras, ali, perto dele, prontas para sugá-lo. Septimus carrega definitivamente a sua carga de sofrimento e morte. É uma chaga aberta, expondo tudo aquilo que em Clarissa é sombra e disfarce; as emoções, as rugas, a evocação da juventude.
    Apesar de viver também a crise da sociedade e sua própria crise existencial, tenta fincar-se no solo seguro do cotidiano, buscando o ‘real’ nos seus aspectos mais rotineiros e normais: a gentileza das criadas, os vasos para as flores, o vestido para a festa que dará à noite. Tudo isso se sobrepõe às mendigas que vê nas ruas, às feridas deixadas pela guerra , às pessoas que nela perderam entes queridos.
    Os caminhos de Septimus jamais se cruzam com os de Mrs, Dalloway – mas falarão dele durante a festa, à noite, o que aborrecerá Clarissa. Que não fora convidada para almoçar com Lady Buton. Essa dorida frustração. E, aqui e ali, nesgas do passado, fotos também, algumas mais vivas, outras desbotadas. No entanto, ela, seu marido e seus amigos frequentam a realeza – a realeza que inspira nas pessoas, de qualquer classe social, a ilusão de segurança e permanência.
    O Tempo é Personagem constante na obra de Virgínia Woolf. Sua volatilidade se esgarça na lembrança de eventos, lugares, pessoas. O tempo que se marca menos pelo relógio – as batidas do Big Ben – e mais pelo rosto de Clarissa frente ao espelho, revelado na superfície inexorável do espelho.
    Num romance em que se prenuncia a doença, a velhice e o pensamento de que alguém vai morrer, é a festa que se contrapõe à ideia da morte. A festa, as flores para a festa, o vestido, os convidados – elementos aos quais se apega Clarissa, tentando ignorar a vida que se escorre em horas e dias e anos.
    Simplesmente tudo muda, tudo passa. O que foi não é mais. Mas o presente tem luz própria e suas próprias flores para serem arranjadas nos vasos. Para Mrs. Dalloway, a festa é uma oferenda, uma ação de graças que ela quer compartilhar com outras pessoas. Ela queria que as pessoas, principalmente Richard e Peter compreendessem: o que ela amava era simplemente a vida. despertar de manhã. O céu, o parque, o encontro com um amigo; Depois, aquelas rosas, era o suficiente. Afinal de contas, que inacreditável era a morte! – que aquilo tivesse que terminar; e ninguém no mundo saberia o quanto ela havia amado aquilo tudo; quanto, a cada instante. 

 Mas não é apenas de Mrs. Dalloway que Virgínia Woolf deseja falar, neste romance. Enquanto Clarissa vive seu dia de preparação e de festa, efeitos da guerra que há pouco se acabara vão aparecendo aqui e ali – acontecem próximos e ao lado de Clarissa, mas a autora tenta poupar sua personagem dessa outra realidade. A de Septimus, por exemplo, que em campo de batalha viu morrer seu amigo Evans cujo fantasma não o abandona nunca, levando-o a delírios que angustiam Rezia, sua esposa italiana. E aqui vemos a insensibilidade do médico: Seu marido está muito doente, disse Sir William a Rezia. não havia ameaçado matar-se? – Oh, sim, exclamou Rezia. Mas ele falava sem pensar. Naturalmente nunca o faria. – Era uma simples questão de repouso – disse o médico. uma casa de saúde no campo, onde seu marido seria perfeitamente tratado. _ longe dela? _ Infelizmente sim, as pessoas de quem mais gostamos não servem para nós quando estamos doentes – afirmou Sir William. Que, à noite, estará, já esquecido do caso,  desfrutando entre amigos a adorável festa em casa dos Dalloway. Miss Kilman, professora de Elizabeth, era de origem alemã, e por isso não fora aceita para trabalhar numa escola inglesa. Mas seu irmão fora morto na guerra (como soldado inglês). Haviam-na despedido porque ela não achava que os alemães  fossem todos uns monstros, quando tinha amigos alemães, e os únicos anos felizes de sua vida havia-os passado na Alemanha! 

 

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