Soneto de Camões

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jaco-e-raquelO soneto, forma poética criada na corte de Frederico II, foi rapidamente adotado pelos poetas florentinos, principalmente Petrarca e em seguida assimilado em outras partes da Europa. É bom  lembrar-se que os estados italianos, sobretudo Florença, eram o centro cultural daquela época. O soneto perpassou o tempo e o espaço e vive até hoje, como uma forma ‘nobre’ e requintada de fazer poesia. Voltarei a ele e sua história mais tarde.

No  momento, interessa mostrar um soneto de Luiz Vaz de Camões*, o gênio da poesia portuguesa. Neste soneto, Camões reconta a história bíblica de Jacó, que durante sete  anos serviu a seu tio, Labão, para poder se casar com Raquel, a prima que ele amava.  Labão foi  desleal com o sobrinho: ao fim de sete anos, deu-lhe como esposa a filha mais velha, Lia. Poderia casar-se também com Raquel, desde que trabalhasse para o tio durante mais sete anos. 

Soneto

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela.
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só, por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la,
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira se não  fora
Para tão longo amor tão curta a vida!

                    ><><

*Camões, poeta português (1524- 1580)

**  Este soneto causou enorme impacto na época em que foi publicado e nas épocas posteriores. Foi traduzido em vários idiomas, e em vários idiomas criticado. Alguns o criticavam por sua simplicidade.  Grande equívoco. Realmente o poema apresenta um vocabulário singelo, não há nele nenhuma palavra de difícil compreensão. Por isso é tão perfeito. É um poema narrativo, conta a história bíblica de Jacó, seu tio Labão e suas primas Lia e Raquel. Aí vem a outra crítica: que Camões havia deturpado o texto bíblico:  Jacó comprometeu-se a trabalhar mais sete anos para seu tio, o que não significava que ele teria que esperar sete anos para casar-se com Raquel. Segundo a Bíblia, foi apenas uma semana, ou seja, sete dias.  A intenção de Camões era expressar liricamente a força do amor de um homem por uma mulher. Esperar por ela durante sete anos foi um elemento que ele usou para intensificar a dramaticidade. Sete dias podem se transformam em anos para uma pessoa apaixonada. Obviamente não era isso que a Bíblia quis contar. Outro aspecto inovador do soneto é a mudança do enfoque narrativo. Trata-se de uma narrativa em 3a. pessoa:  é o poeta quem conta a história. Nas duas últimas estrofes, porém,  o personagem,  Jacó,  assume e seu Eu e fala: “Mais servira se não fora / para tão longo amor tão curta a vida.”

Um  finnale magistral. Só podia ser Camões. 

 

 

 

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