A Divina Comédia

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blake_divinecomedy1Nel mezzo del camin di nostra vita
mi
ritrovai per uma selva oscura

chi la diritta via era smarrita.

(No meio do caminho de nossa vida
encontrei-me dentro de selva escura
Tendo a verdadeira trilha perdida.)

 Assim começa Dante A DIVINA COMÉDIA (1): no meio do caminho da vida, ele se encontra dentro de uma selva escura, pois perdeu a verdadeira trilha – deverá, portanto, encontrar o verdadeiro caminho – trata-se, portanto de uma história de busca, de procura. É uma procura individual, que ele torna universal, de toda a humanidade, através da palavra nostra – nossa vida. O poema tem como base o número três, que é um número pleno de simbologias. A primeira trilogia está na própria divisão da obra em três parte: Inferno, Purgatório e Paraíso. No Inferno há um pré-inferno, o Limbo, onde se encontrava aquele que seria o condutor de Dante em sua jornada.  Perdido dentro da selva escura, o poeta avista uma montanha e intenta subi-la, mas é contido por três animais que lhe aparecem um depois do outro: uma pantera, um leão e uma loba. Correspondem, respectivamente,  a Florença, França e Roma.
       Beatriz, que foi o eterno amor de Dante, e que há muito se encontrava no Paraíso, descera até o Limbo para enviar-lhe um guia, Virgílio, poeta da antiguidade romana,  a quem Dante venerava. Aparece então a segunda trilogia – os três personagens da obra: Dante, Virgílio e Beatriz.
Virgílio avisa que, para sair  daquela selva, só há um caminho, o qual passa pelo Inferno. A idéia aterroriza o poeta, mas, como não há outro meio, e confiando em seu protetor, aceita arriscar-se a essa viagem.

INFERNO

O Inferno

O Inferno

  Nas descrições do Inferno há paisagens e cenas aterradoras,  cujos  terrores nem na Bíblia se encontram e que serão paradigma para a arte e a religião da cristandade medieval – pintadas nas paredes das igrejas e utilizadas pelos padres em seus sermões .

A primeira parte é um Pré-Inferno, o Limbo, onde se encontram as crianças e adultos que, por alguma razão, morreram sem ser batizados. Encontram-se também os ‘pagãos’ – aqueles que viveram antes de Cristo, os quais, mesmo se tiveram uma vida ética, não poderiam subir ao Paraíso.  Por isso, ali Virgílio ali estava Virgilio Estavam também virtuosos sábios da antiguidade como Homero, Ovídio, Electra, Enéias. Mas, como político, Dante sempre queria dizer mais uma coisa.  O Limbo é também o  lugar dos omissos, dos covardes e indecisos, daqueles que não tomam partido – não fazem diferença no mundo,  podem ser esquecidos.

No Inferno – e aqui Dante se torna um juiz de toda a humanidade – estão aqueles que cometeram faltas graves contra si mesmos, contra o próximo,  contra a natureza, a arte,  contra Deus – e  contra Dante. Há que se ter cuidado com o julgamento do poeta. É um gênio, mas é humano. No Inferno ele coloca figuras mitológicas, e também figuras históricas, principalmente de sua época, conterrâneos e/ou contemporâneos.
Obviamente ali estão seus adversários políticos, não só porque os considera maus, mas também numa espécie de vingança. Devemos destacar o fato de que Dante, que viveu numa época pré-maquiavel, a política era algo muito diferente da maneira como foi vista depois e é até hoje – como uma atividade moralmente inferior.  “Dante pensava de maneira diferente. Para ele, a política era irmã da religião, e ambas, unidas, guiavam o homem para a paz terrestre e a beatitude celeste. O que no Céu é religião, na Terra é Política; e o Purgatório é a ponte entre a imperfeição humana e a perfeição divina. “ ( nota x)  No inferno, portanto,  ele colocará  os maus políticos: Filipe Argenti, florentino, seu inimigo; Farinata Uberti, chefe dos gibelinos, adversários dos guelfos, partido de Dante; o papa Celestino V,  do qual Dante era amigo, condenado por covardia e omissão: abdicou do trono papal, dando lugar a Nicolau III, um dos responsáveis pelo desterro de Dante; o franciscano Guido de Montefeltro, conselheiro do dito papa, e muitos outros de seus inimigos.
Mas havia também aqueles condenados por  outros pecados inaceitáveis. Por simonia*** estão ali, o já referido papa Nicolau III e Bonifácio II. E mais. O cardeal Otávio Ubaldini, cardeal herege; os falsários Latino de Arezzo, Latino de Siena, e outros que cometeram o mesmo crime; os tiranos Azzolino, Obizzio d’Este, Nesso, os dois Pinatos (ver canto XII); por viverem uma paixão proibida,  Paulo e Francesca de Rimini, Cleópatra, Helena (de Tróia), Páris, Tristão;  Bruneto Latini, antigo professor de Dante, condenado ao Inferno por ‘amar da maneira errada’; Cavalcante Cavalcanti, pai de Guido, amigo de Dante, por ser mau poeta ( o pai, não o filho). No Canto XXI, Dante condena os trapaceiros, que negociaram cargos públicos, ou roubaram dos que neles confiavam – esses estão mergulhados em piche fervendo.
Depois de conhecer esses e todos os outros círculos do Inferno, Dante está ansioso para verde novo  a ‘face clara’do mundo. Junto com seu guia ele então se eleva até onde estão as ‘coisas belas’ e, conta,  por uma circular aberta

Saindo tornamos a ver estrelas.

O PURGATÓRIO

A primeira parte do Purgatório consiste numa montanha altíssima, com nove patamares e onde estão aqueles que cometeram algum dos 7 pecados capitais. Há muito sofrimento, pois os que ali se encontram ainda se encontram presos aos seus vícios, incapazes de começar a subida pelos nove círculos que levarão ao Paraíso. A montanha é íngreme, há trechos quase totalmente verticais, há que subir usando os pé e as mãos. Há um momento em que o próprio Dante se queixa a Virgílio – está exausto e tem dificuldade de acompanhá-lo nessa escalada.

No Purgatório não há demônios e sim anjos que vigiam cada entrada. O Purgatório é a parte mais humana de A DIVINA COMÉDIA Para lá vão as almas dos arrependidos, dos quais há dois tipos: os que se arrependeram tempos antes da morte e os que se arrependeram na última hora.

O Purgatório - William Blake

O Purgatório – William Blake

Os primeiros, logo que chegam ao Purgatório, já começam a dura escalada que finalmente os tornará merecedores do Paraíso. Os segundos, que se arrependeram na última hora, terão que aguardar um tempo, ainda presos ao seu erro,  antes de começar a subida. Lá estão muitos conhecidos de Dante, entre os quais o poeta Guido Guinizzelli cujo pecado foi a luxúria. Um outro amigo, Belacqua, foi um grande preguiçoso. Dante o encontra deitado – ele não inicia sua subida porque ainda se sente cansado, esperando criar coragem. Belacqua foi um arrependido de última hora e a preguiça que tivera em sua vida terrena o impede de fazer qualquer esforço.Depois que alcançam o último patamar do Purgatório, Virgílio desaparece e surge Beatriz, que é recebida com júbilo pelos anjos. A partir de  então ela é que será guia do poeta. Saindo “puro das águas consagradas”, Dante se sente

Pronto a me alar às lúridas estrelas.”

O  PARAÍSO

dante-e-a-astrologiaComo era a crença em sua época, Dante tem uma visão ptolomaica do mundo: a Terra é o centro do Universo e em torno dela giram os planetas. O Paraíso é dividido em duas partes, uma material e outra espiritual. A parte material possui 9 círculos: os sete primeiros são formados pelos sete planetas: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno, cada um símbolo de uma virtude. Na Lua estão as almas daqueles que cumpriram seus votos religiosos; em Mercúrio, os que viveram uma vida digna; Vênus acolhe aqueles que viveram intensamente uma paixão amorosa;  no Sol habitam os doutores da Teologia, no centro São Tomás de Aquino; em Marte estão aqueles que pegaram em armas para defender a religião cristã; em Júpiter os príncipes que governaram com justiça: em Saturno uma multidão resplendente de almas que dedicaram sua vida à contemplação celeste.

O oitavo é o  céu das estrelas fixas e o nono é o Primum Mobile, o céu cristalino e último círculo da matéria – ao chegar a esse círculo já Dante adquiriu a visão que o torna capaz de compreender o mundo espiritual. Este possui nove círculos angélicos girando em volta de Deus. Finalmente o poeta tem a visão da Rosa Mística, a Suprema Sabedoria, a luz pela qual ele tanto almejava. Então Beatriz volta a seu lugar entre os bem-aventurados e aparece Sào Bernardo, o último guia de Dante. Este pede à Virgem Maria que conceda ao poeta contemplar a Deus. “E Dante vê um tríplice círculo no qual está revelada a Trindade Divina. No círculo médio vê figurada a efígie humana. Dante deseja ver de que modo se dá a união da natureza divina com a natureza. Um súbito esplendor lhe revela o mistério da encarnação de Cristo e assim termina a sublime visão. Completou-se também a última trilogia, a dos seus guias: primeiro Virgílio, depois Beatriz e finalmente São Bernardo. Assim expressa o poeta como ele foi transformado por essa visão experiência mística:

Mas, como olhando, a vista se alentava,
A Imutável Essência parecia
Mudar, quando só eu me transformava.

E conclui:

À fantasia aqui valor fenece;
Mas a vontade minha a idéias belas,
Qual roda, que ao motor obedece

 Volvia o Amor, que move sol e estrelas.

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NOTAS

  1. Dante deu à sua obra o título COMÉDIA, em oposição a Tragédia: a Tragédia termina mal, e a Comédia termina bem – terminou no Paraíso. A palavra Comédia se refere também à aventura da vida, à existência humana em todos os seus aspectos: físico, psíquico, intelectual, moral, espiritual. A palavra DIVINA foi acrescentada posteriormente por Bocaccio, o principal biógrafo de Dante, por considerá-la poeticamente maravilhosa obra-prima (divina!) 
  2. Esta é uma visão mítica-religiosa-medival   da  obra do poeta,    cuja cosmogonia tenta explicar as diversas etapas da evolução ideal do ser humano. Não somente dele, mas de toda a humanidade, observada de sua perspectiva visionária.
  3. “Estrela” é usada comumente para simbolizar ‘guia’, ‘orientação’. Representadas nas igrejas têm ligam-se ao significado celeste, representam o Céu ou Paraíso. São símbolos do espírito, conotando  os dilemas entre as forças espirituais e as forças materiais, a luz e as trevas, o bem e o mal.  Mas, principalmente, as estrelas significam luz: fontes de luz, do amor e da sabedoria.
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